quinta-feira, 8 de outubro de 2009
sábado, 26 de setembro de 2009
A religião ou o sentimento religioso...
A religião, ou o sentimento religioso, é o mais inconfessável de todos: não por irracional, mas porque é da sua mais íntima natureza o silêncio da vida física do universo, que só faz barulho por acaso e não para a gente ouvir. Que mais não fosse, acharia ridícula, e acho, a atitude dos «libertos», nascidas da cabeça de Júpiter, desirmanados de tudo quanto encarnou as dores e as esperanças de uma humanidade dolorosamente em busca do seu próprio corpo. Mais que ridícula, criminosa, estulta, digna dos raios divinos, se os houvesse. Neste sentido, me é respeitável a religião considerada na sua acção interior e na sua simbólica aparente; e, como poeta, não posso deixar de ser sensível ao paganismo que a Igreja Católica não sonha - ou sonha até - a que ponto herdou. Quando a religião pretende fixar-se, lutar ligada a interesses materiais que geraram muitas das formas que ela tomou, evidentemente que sou contrário a ela, a aquela, porque sei que não há eternidade das formas e das convenções, mas sim da orgânica simbólica que assume uma ou outra forma, segundo o estado social em que se desenvolve.
Jorge de Sena, carta a sua noiva Mécia Lopes, 15 Dezembro 1947
terça-feira, 15 de setembro de 2009
“ M’ESPANTO AS VEZES...” (Sá de Miranda)
É mandatária para a juventude de um grande partido de esquerda. Cara bonita, a televisão de Balsemão explora-lhe os méritos como apresentadora e pelo menos uma agência de publicidade pô-la a ilustrar um anúncio.
Filha de família com posses e nome (nesta terra quem tem posses nome tem e vice-versa), dada a sua condição teve que fazer a opção de classe para militar nas hostes dos que, em programa, se deram como missão defender dos vampiros exploradores as classes mais desprotegidas. Ilustrou essa opção fazendo saber que só come cerejas e uvas depois de a criada lhes ter extraído caroços e grainhas. Como qualquer mortal, não gosta de engolir caroços nem grainhas. A opção de classe que fez explica o modo bizarro como contornou a dificuldade.
Ao nível da mentalidade, é modernamente “fracturante” quando proclama que é melhor ganhar eleições fazendo batota do que perdê-las. Não me admiraria, se o seu partido ganhar, de a ver a propor leis fracturantes que descriminalizem a corrupção, a falsificação de documentos, o perjúrio, o falso testemunho, e cosi via.
Os botas de elástico presos a princípios de ética ou moral hão-de bramar contra isso. Nada que um referendo não resolva: se for vontade do povo consagrar a batota como comportamento a seguir, não apenas em eleições, mas na vida toda, seremos todos muito felizes.
Como é que Cristo, nas bem-aventuranças, se esqueceu de dizer: Bem-aventurados os que fazem batota, porque eles possuirão a terra? Pois não é evidente?
Filha de família com posses e nome (nesta terra quem tem posses nome tem e vice-versa), dada a sua condição teve que fazer a opção de classe para militar nas hostes dos que, em programa, se deram como missão defender dos vampiros exploradores as classes mais desprotegidas. Ilustrou essa opção fazendo saber que só come cerejas e uvas depois de a criada lhes ter extraído caroços e grainhas. Como qualquer mortal, não gosta de engolir caroços nem grainhas. A opção de classe que fez explica o modo bizarro como contornou a dificuldade.
Ao nível da mentalidade, é modernamente “fracturante” quando proclama que é melhor ganhar eleições fazendo batota do que perdê-las. Não me admiraria, se o seu partido ganhar, de a ver a propor leis fracturantes que descriminalizem a corrupção, a falsificação de documentos, o perjúrio, o falso testemunho, e cosi via.
Os botas de elástico presos a princípios de ética ou moral hão-de bramar contra isso. Nada que um referendo não resolva: se for vontade do povo consagrar a batota como comportamento a seguir, não apenas em eleições, mas na vida toda, seremos todos muito felizes.
Como é que Cristo, nas bem-aventuranças, se esqueceu de dizer: Bem-aventurados os que fazem batota, porque eles possuirão a terra? Pois não é evidente?
J. Tomaz Ferreira
segunda-feira, 3 de agosto de 2009
O DEUS CRISTÃO
O Cristianismo não é uma nova ideologia, que proponha uma explicação satisfatória para as várias contradições da condição humana.
O cristianismo é uma existência nova
E a sua resposta só é satisfatória para aqueles
Que se empenham totalmente a seguir a Cristo,
Para fazer recuar o mal sob todas as suas formas.
O Deus cristão é o fundamento mesmo da responsabilidade total do homem,
Relativamente aos seu irmãos e relativamente ao mundo.
O cristianismo é uma existência nova
E a sua resposta só é satisfatória para aqueles
Que se empenham totalmente a seguir a Cristo,
Para fazer recuar o mal sob todas as suas formas.
O Deus cristão é o fundamento mesmo da responsabilidade total do homem,
Relativamente aos seu irmãos e relativamente ao mundo.
CL.-J. GEFFRÉ, o.p.
domingo, 2 de agosto de 2009
PENSAR O MUNDO
Ensinaram-nos no catecismo que são três os “inimigos da alma – Mundo, Demónio e Carne. É grande a tradição de fuga ao mundo nos caminhos para a perfeição cristã. Vem dos primórdios do Cristianismo a fuga para o deserto dos anacoretas, que na solidão absoluta viviam em penitência a luta contra as tentações da carne e do Demónio (como Santo Antão – mas não precisavam de enfrentar os perigos do Mundo com quem radicalmente tinha cortado todo o contacto.
Esta ascese da solidão foi mais tarde substituída pelas Ordens religiosas que, preservando os valores da vida em comunidade, e aproveitando-os como ajuda ao crescimento espiritual, mantinham no silêncio dos claustros a mesma aversão ao Mundo de que se viam protegidos pelos muros do convento.
Esta diabolização do mundo colhe a sua origem o Evangelho de S. João onde nos aparecem dois conceitos de mundo que não se devem confundir. O primeiro é o mundo como realidade criada, obra do Verbo - “por Ele mundo veio à existência” (Jo., 1, 10) – e, como tal, classificada de “muito boa” por Deus: “Deus, vendo toda a sua obra, considerou-a muito boa” (Gen., 1, 31). Este é o mundo que Deus ama, segundo o testemunho do próprio Cristo no seu diálogo com Nicodemos: “Deus amou tanto o mundo, que lhe entregou o seu próprio Filho Unigénito” (Jo., 3, 16).
A par deste mundo, aparece-nos, sempre no Evangelho de João, nomeadamente nos capítulos 15 e 17, um mundo hostil que assume uma posição de ódio para com os discípulos de Jesus, para com aqueles que ouviram a sua palavra e a seguiram. O ódio aos discípulos mais não é, aliás, do que o seguimento do ódio que votou ao Mestre e que tem a sua explicação no facto de um e outros não pertencerem a esse mundo: “Se o mundo vos odeia, reparai que, antes que a vós, me odiou a Mim. Se fôsseis do mundo, o mundo amaria o que é seu, mas, como não sois do mundo, por isso é que o mundo vos odeia” (Jo., 15, 18-19). Por este mundo que O odeia recusa-se Cristo a rezar: “É por eles que eu rogo. Não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me confiaste” (Jo., 17, 9).
Que mundo é então este, que se contrapõe ao mundo que Deus ama? O traço identificativo do mundo mau está no ódio que vota a Jesus e aos que O seguem. E a raiz desse ódio está no facto de não reconhecer como seus, como pertença sua, nem Jesus nem os que O seguem. O que nos remete inequivocamente para os comportamentos – que, aliás, nos é indicado na própria história de Jesus. Resulta claramente das narrativas evangélicas que foi o choque entre as atitudes e valores que Jesus preconizava e os valores e atitudes praticados e defendidos pela classe dirigente da teocracia vigente que ditou a perseguição que esta lhe moveu até à morte. Os discursos contra os escribas e fariseus em que é verberada a sua hipocrisia, o seu amor às honrarias, a sua obsessão de domínio, o seu desdém pelos mais pequenos, o apego aos privilégios, são a exegese, a contrario sensu das opções que o próprio Cristo fez quando, tentado pelo Demónio, recusou como caminhos de vida a riqueza, a fama e o poder. Os que seguem estes caminhos sentem-se ameaçados quando alguém incarna o seu contrário. Sentem que o seu mundo pode ruir. E a este mundo não podem pertencer os que escolheram seguir a Cristo, porque é o mundo do Mal.
Mas é neste mundo que têm que viver e que Jesus quer que vivam: “Não te peço que o retires do mundo, mas que os livres do Mal” (Jo., 17, 15). Viver no mundo e não ser do mundo é o grande desafio dos cristãos que escolheram permanecer no século. Estar no mundo e não se deixar contaminar pelos seus valores é o grande desafio no plano individual. A que se junta um outro no plano cívico: agir para que a sociedade se liberte dos valores dominantes do Maligno e adira aos valores evangélicos.
O primeiro passo para o conseguir é pensar os acontecimentos à luz do Evangelho e identificar, nos comportamentos que os integram, os valores que lhes estão subjacentes. Depois, haverá que julgá-los à luz do Evangelho para em seguida agir de acordo com o juízo que se fez.
O cristão não pode ser um alienado do que se passa à sua volta. Se o for, o testemunho que der do seu cristianismo será um testemunho pequenino. A tarefa de salvar o mundo – o mundo que Deus ama – é grande demais para dispensar o esforço de cada um. E esse esforço tem de ultrapassar em preocupação o plano meramente individual, e alargar-se tendencialmente às dimensões do universo.
J. Tomaz Ferreira
Esta ascese da solidão foi mais tarde substituída pelas Ordens religiosas que, preservando os valores da vida em comunidade, e aproveitando-os como ajuda ao crescimento espiritual, mantinham no silêncio dos claustros a mesma aversão ao Mundo de que se viam protegidos pelos muros do convento.
Esta diabolização do mundo colhe a sua origem o Evangelho de S. João onde nos aparecem dois conceitos de mundo que não se devem confundir. O primeiro é o mundo como realidade criada, obra do Verbo - “por Ele mundo veio à existência” (Jo., 1, 10) – e, como tal, classificada de “muito boa” por Deus: “Deus, vendo toda a sua obra, considerou-a muito boa” (Gen., 1, 31). Este é o mundo que Deus ama, segundo o testemunho do próprio Cristo no seu diálogo com Nicodemos: “Deus amou tanto o mundo, que lhe entregou o seu próprio Filho Unigénito” (Jo., 3, 16).
A par deste mundo, aparece-nos, sempre no Evangelho de João, nomeadamente nos capítulos 15 e 17, um mundo hostil que assume uma posição de ódio para com os discípulos de Jesus, para com aqueles que ouviram a sua palavra e a seguiram. O ódio aos discípulos mais não é, aliás, do que o seguimento do ódio que votou ao Mestre e que tem a sua explicação no facto de um e outros não pertencerem a esse mundo: “Se o mundo vos odeia, reparai que, antes que a vós, me odiou a Mim. Se fôsseis do mundo, o mundo amaria o que é seu, mas, como não sois do mundo, por isso é que o mundo vos odeia” (Jo., 15, 18-19). Por este mundo que O odeia recusa-se Cristo a rezar: “É por eles que eu rogo. Não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me confiaste” (Jo., 17, 9).
Que mundo é então este, que se contrapõe ao mundo que Deus ama? O traço identificativo do mundo mau está no ódio que vota a Jesus e aos que O seguem. E a raiz desse ódio está no facto de não reconhecer como seus, como pertença sua, nem Jesus nem os que O seguem. O que nos remete inequivocamente para os comportamentos – que, aliás, nos é indicado na própria história de Jesus. Resulta claramente das narrativas evangélicas que foi o choque entre as atitudes e valores que Jesus preconizava e os valores e atitudes praticados e defendidos pela classe dirigente da teocracia vigente que ditou a perseguição que esta lhe moveu até à morte. Os discursos contra os escribas e fariseus em que é verberada a sua hipocrisia, o seu amor às honrarias, a sua obsessão de domínio, o seu desdém pelos mais pequenos, o apego aos privilégios, são a exegese, a contrario sensu das opções que o próprio Cristo fez quando, tentado pelo Demónio, recusou como caminhos de vida a riqueza, a fama e o poder. Os que seguem estes caminhos sentem-se ameaçados quando alguém incarna o seu contrário. Sentem que o seu mundo pode ruir. E a este mundo não podem pertencer os que escolheram seguir a Cristo, porque é o mundo do Mal.
Mas é neste mundo que têm que viver e que Jesus quer que vivam: “Não te peço que o retires do mundo, mas que os livres do Mal” (Jo., 17, 15). Viver no mundo e não ser do mundo é o grande desafio dos cristãos que escolheram permanecer no século. Estar no mundo e não se deixar contaminar pelos seus valores é o grande desafio no plano individual. A que se junta um outro no plano cívico: agir para que a sociedade se liberte dos valores dominantes do Maligno e adira aos valores evangélicos.
O primeiro passo para o conseguir é pensar os acontecimentos à luz do Evangelho e identificar, nos comportamentos que os integram, os valores que lhes estão subjacentes. Depois, haverá que julgá-los à luz do Evangelho para em seguida agir de acordo com o juízo que se fez.
O cristão não pode ser um alienado do que se passa à sua volta. Se o for, o testemunho que der do seu cristianismo será um testemunho pequenino. A tarefa de salvar o mundo – o mundo que Deus ama – é grande demais para dispensar o esforço de cada um. E esse esforço tem de ultrapassar em preocupação o plano meramente individual, e alargar-se tendencialmente às dimensões do universo.
J. Tomaz Ferreira
segunda-feira, 20 de julho de 2009
UM OLHAR DE CRIANÇA
Um dia, era eu adolescente, tinha caminhado toda a tarde à beira do mar. Era Inverno, e no céu infinitamente deserto, despertavam as primeiras estrelas. Possivelmente estavam mortas há milhares ou milhões de anos, mas a sua luz continuava a chegar até mim. Em breve eu próprio estaria morto, e um pouco mais tarde – porque diante do nada, mais ainda do que diante de Deus os milénios parecem dias – um pouco mais tarde a Terra estaria morta e as estrelas mortas continuariam a brilhar. Gelado, com o coração gelado, subi para o carro que levaria de regresso à cidade. Tinha resolvido suicidar-me. Para quê esperar? Para quê deixar ainda o nada invadir-me como uma tortura? Que me leve já e para sempre.
Então, senti que alguém olhava para mim. Era uma pequenita de quatro ou cinco anos. Os seus olhos estavam cheios de amizade. Ela sorriu. E eu compreendi que a luz de um olhar – o oceano interior dos olhos – era mais vasto do que o nada salpicado de estrelas, e que havia nessa luz uma promessa, E QUE ERA PRECISO VIVER.
Patriarca Atenágoras
Então, senti que alguém olhava para mim. Era uma pequenita de quatro ou cinco anos. Os seus olhos estavam cheios de amizade. Ela sorriu. E eu compreendi que a luz de um olhar – o oceano interior dos olhos – era mais vasto do que o nada salpicado de estrelas, e que havia nessa luz uma promessa, E QUE ERA PRECISO VIVER.
Patriarca Atenágoras
DO MATRIMÓNIO CRISTÃO
Apesar de todo o empenho na defesa da família e das preocupações patentes na pastoral familiar, não podemos furtar-nos à impressão de que, para a Igreja, o estado de casado é uma situação de vida de grau inferior. O que mais se exalta é a vida consagrada que se vive adentro dos muros do convento nas ordens religiosas. E no mundo, àqueles que se destinam a presidir às comunidades cristãs impõe-se como dever a guarda do celibato, e consequentemente a renúncia à vida conjugal. De resto, no calendário litúrgico, que atribui a cada santo um qualificação catalogante, encontramos mártires, doutores, confessores, virgens e... viúvas, como se fosse condição para ascender à santidade a rotura do vínculo conjugal por morte do cônjuge.
É verdade que foi o próprio Cristo quem apontou o celibato como caminho de vida, e o valorizou quando ele é assumido por amor do Reino de Deus (Cf. Mt., 19, 12). Mas não deixa de ser curioso que o tenha feito respondendo aos Apóstolos que, assustados com as exigências do Matrimónio, que o mesmo Jesus enunciara, concluíram que “assim sendo, é melhor não casar” (Mt., 19, 10). O que logo indicia que o caminho do casamento não representa na vida cristã uma via de menor esforço...
É pena que a reflexão sobre o Matrimónio cristão se fixe quase exclusivamente neste texto, quando a teologia do Sacramento tem a sua fonte mais rica no texto de S. Paulo aos Efésios, cap. 5. vv. 21 a 33. Também nele se enunciam os deveres dos esposos – não já apenas os decorrentes da indissolubilidade (como no texto citado de Mateus), mas principalmente a grandeza do amor mútuo, que é um amor único, pois colhe a sua grandeza no facto de representar na Terra a união de Cristo com a Sua Igreja. Marido e Mulher devem amar-se como se amam Cristo e a Igreja, unidos por um vínculo que nada nem ninguém pode quebrar.
Diz-se, e com razão, que o matrimónio é um contrato e acrescenta-se que, ao contrário de outros contratos, este não pode dissolver-se pela vontade das partes. É pobre e dificilmente compreensível. Mais uma vez o juridismo inquina a realidade, infestando-a com o seu efeito redutor. A unidade do casamento cristão não deriva do seco assentimento prestado pelas partes contratantes. O assentimento prestado configura certamente a realidade jurídica de um contrato, mas gera, para além dele, uma unidade física, bem patente aliás na expressão que vem já do Velho Testamento, e que Cristo reiterou: “serão dois numa só carne” (Mt., 19, 5): dificilmente esta expressão se pode reconduzir à imaterialidade de um acto de vontade revogável ad nutum. Falta-lhe, porém, o fundamento. E é S. Paulo quem o aduz no texto citado: os esposos representam na Terra a união de Cristo com a Sua Igreja que de jurídico não tem nada e de físico tudo tem: a Humanidade constitui-se em Igreja de Cristo pela comunhão da vida do mesmo Cristo que lhe é transmitida pelo Baptismo.
Esta é a grandeza do Matrimónio cristão, e a sua beleza na economia da salvação. Não se faz teologia falando da beleza dos mistérios e hierarquizando-os. Mas apetece-me dizer que, por aquilo que representa, o Matrimónio é realmente um Sacramento particularmente belo – que entusiasmou o próprio Paulo quando, a terminar o texto citado, não se inibe de exclamar: “Este mistério é grande!” (Ef., 5, 32).J.
Tomaz Ferreira
É verdade que foi o próprio Cristo quem apontou o celibato como caminho de vida, e o valorizou quando ele é assumido por amor do Reino de Deus (Cf. Mt., 19, 12). Mas não deixa de ser curioso que o tenha feito respondendo aos Apóstolos que, assustados com as exigências do Matrimónio, que o mesmo Jesus enunciara, concluíram que “assim sendo, é melhor não casar” (Mt., 19, 10). O que logo indicia que o caminho do casamento não representa na vida cristã uma via de menor esforço...
É pena que a reflexão sobre o Matrimónio cristão se fixe quase exclusivamente neste texto, quando a teologia do Sacramento tem a sua fonte mais rica no texto de S. Paulo aos Efésios, cap. 5. vv. 21 a 33. Também nele se enunciam os deveres dos esposos – não já apenas os decorrentes da indissolubilidade (como no texto citado de Mateus), mas principalmente a grandeza do amor mútuo, que é um amor único, pois colhe a sua grandeza no facto de representar na Terra a união de Cristo com a Sua Igreja. Marido e Mulher devem amar-se como se amam Cristo e a Igreja, unidos por um vínculo que nada nem ninguém pode quebrar.
Diz-se, e com razão, que o matrimónio é um contrato e acrescenta-se que, ao contrário de outros contratos, este não pode dissolver-se pela vontade das partes. É pobre e dificilmente compreensível. Mais uma vez o juridismo inquina a realidade, infestando-a com o seu efeito redutor. A unidade do casamento cristão não deriva do seco assentimento prestado pelas partes contratantes. O assentimento prestado configura certamente a realidade jurídica de um contrato, mas gera, para além dele, uma unidade física, bem patente aliás na expressão que vem já do Velho Testamento, e que Cristo reiterou: “serão dois numa só carne” (Mt., 19, 5): dificilmente esta expressão se pode reconduzir à imaterialidade de um acto de vontade revogável ad nutum. Falta-lhe, porém, o fundamento. E é S. Paulo quem o aduz no texto citado: os esposos representam na Terra a união de Cristo com a Sua Igreja que de jurídico não tem nada e de físico tudo tem: a Humanidade constitui-se em Igreja de Cristo pela comunhão da vida do mesmo Cristo que lhe é transmitida pelo Baptismo.
Esta é a grandeza do Matrimónio cristão, e a sua beleza na economia da salvação. Não se faz teologia falando da beleza dos mistérios e hierarquizando-os. Mas apetece-me dizer que, por aquilo que representa, o Matrimónio é realmente um Sacramento particularmente belo – que entusiasmou o próprio Paulo quando, a terminar o texto citado, não se inibe de exclamar: “Este mistério é grande!” (Ef., 5, 32).J.
Tomaz Ferreira
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