Ensinaram-nos no catecismo que são três os “inimigos da alma – Mundo, Demónio e Carne. É grande a tradição de fuga ao mundo nos caminhos para a perfeição cristã. Vem dos primórdios do Cristianismo a fuga para o deserto dos anacoretas, que na solidão absoluta viviam em penitência a luta contra as tentações da carne e do Demónio (como Santo Antão – mas não precisavam de enfrentar os perigos do Mundo com quem radicalmente tinha cortado todo o contacto.
Esta ascese da solidão foi mais tarde substituída pelas Ordens religiosas que, preservando os valores da vida em comunidade, e aproveitando-os como ajuda ao crescimento espiritual, mantinham no silêncio dos claustros a mesma aversão ao Mundo de que se viam protegidos pelos muros do convento.
Esta diabolização do mundo colhe a sua origem o Evangelho de S. João onde nos aparecem dois conceitos de mundo que não se devem confundir. O primeiro é o mundo como realidade criada, obra do Verbo - “por Ele mundo veio à existência” (Jo., 1, 10) – e, como tal, classificada de “muito boa” por Deus: “Deus, vendo toda a sua obra, considerou-a muito boa” (Gen., 1, 31). Este é o mundo que Deus ama, segundo o testemunho do próprio Cristo no seu diálogo com Nicodemos: “Deus amou tanto o mundo, que lhe entregou o seu próprio Filho Unigénito” (Jo., 3, 16).
A par deste mundo, aparece-nos, sempre no Evangelho de João, nomeadamente nos capítulos 15 e 17, um mundo hostil que assume uma posição de ódio para com os discípulos de Jesus, para com aqueles que ouviram a sua palavra e a seguiram. O ódio aos discípulos mais não é, aliás, do que o seguimento do ódio que votou ao Mestre e que tem a sua explicação no facto de um e outros não pertencerem a esse mundo: “Se o mundo vos odeia, reparai que, antes que a vós, me odiou a Mim. Se fôsseis do mundo, o mundo amaria o que é seu, mas, como não sois do mundo, por isso é que o mundo vos odeia” (Jo., 15, 18-19). Por este mundo que O odeia recusa-se Cristo a rezar: “É por eles que eu rogo. Não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me confiaste” (Jo., 17, 9).
Que mundo é então este, que se contrapõe ao mundo que Deus ama? O traço identificativo do mundo mau está no ódio que vota a Jesus e aos que O seguem. E a raiz desse ódio está no facto de não reconhecer como seus, como pertença sua, nem Jesus nem os que O seguem. O que nos remete inequivocamente para os comportamentos – que, aliás, nos é indicado na própria história de Jesus. Resulta claramente das narrativas evangélicas que foi o choque entre as atitudes e valores que Jesus preconizava e os valores e atitudes praticados e defendidos pela classe dirigente da teocracia vigente que ditou a perseguição que esta lhe moveu até à morte. Os discursos contra os escribas e fariseus em que é verberada a sua hipocrisia, o seu amor às honrarias, a sua obsessão de domínio, o seu desdém pelos mais pequenos, o apego aos privilégios, são a exegese, a contrario sensu das opções que o próprio Cristo fez quando, tentado pelo Demónio, recusou como caminhos de vida a riqueza, a fama e o poder. Os que seguem estes caminhos sentem-se ameaçados quando alguém incarna o seu contrário. Sentem que o seu mundo pode ruir. E a este mundo não podem pertencer os que escolheram seguir a Cristo, porque é o mundo do Mal.
Mas é neste mundo que têm que viver e que Jesus quer que vivam: “Não te peço que o retires do mundo, mas que os livres do Mal” (Jo., 17, 15). Viver no mundo e não ser do mundo é o grande desafio dos cristãos que escolheram permanecer no século. Estar no mundo e não se deixar contaminar pelos seus valores é o grande desafio no plano individual. A que se junta um outro no plano cívico: agir para que a sociedade se liberte dos valores dominantes do Maligno e adira aos valores evangélicos.
O primeiro passo para o conseguir é pensar os acontecimentos à luz do Evangelho e identificar, nos comportamentos que os integram, os valores que lhes estão subjacentes. Depois, haverá que julgá-los à luz do Evangelho para em seguida agir de acordo com o juízo que se fez.
O cristão não pode ser um alienado do que se passa à sua volta. Se o for, o testemunho que der do seu cristianismo será um testemunho pequenino. A tarefa de salvar o mundo – o mundo que Deus ama – é grande demais para dispensar o esforço de cada um. E esse esforço tem de ultrapassar em preocupação o plano meramente individual, e alargar-se tendencialmente às dimensões do universo.
J. Tomaz Ferreira
domingo, 2 de agosto de 2009
segunda-feira, 20 de julho de 2009
UM OLHAR DE CRIANÇA
Um dia, era eu adolescente, tinha caminhado toda a tarde à beira do mar. Era Inverno, e no céu infinitamente deserto, despertavam as primeiras estrelas. Possivelmente estavam mortas há milhares ou milhões de anos, mas a sua luz continuava a chegar até mim. Em breve eu próprio estaria morto, e um pouco mais tarde – porque diante do nada, mais ainda do que diante de Deus os milénios parecem dias – um pouco mais tarde a Terra estaria morta e as estrelas mortas continuariam a brilhar. Gelado, com o coração gelado, subi para o carro que levaria de regresso à cidade. Tinha resolvido suicidar-me. Para quê esperar? Para quê deixar ainda o nada invadir-me como uma tortura? Que me leve já e para sempre.
Então, senti que alguém olhava para mim. Era uma pequenita de quatro ou cinco anos. Os seus olhos estavam cheios de amizade. Ela sorriu. E eu compreendi que a luz de um olhar – o oceano interior dos olhos – era mais vasto do que o nada salpicado de estrelas, e que havia nessa luz uma promessa, E QUE ERA PRECISO VIVER.
Patriarca Atenágoras
Então, senti que alguém olhava para mim. Era uma pequenita de quatro ou cinco anos. Os seus olhos estavam cheios de amizade. Ela sorriu. E eu compreendi que a luz de um olhar – o oceano interior dos olhos – era mais vasto do que o nada salpicado de estrelas, e que havia nessa luz uma promessa, E QUE ERA PRECISO VIVER.
Patriarca Atenágoras
DO MATRIMÓNIO CRISTÃO
Apesar de todo o empenho na defesa da família e das preocupações patentes na pastoral familiar, não podemos furtar-nos à impressão de que, para a Igreja, o estado de casado é uma situação de vida de grau inferior. O que mais se exalta é a vida consagrada que se vive adentro dos muros do convento nas ordens religiosas. E no mundo, àqueles que se destinam a presidir às comunidades cristãs impõe-se como dever a guarda do celibato, e consequentemente a renúncia à vida conjugal. De resto, no calendário litúrgico, que atribui a cada santo um qualificação catalogante, encontramos mártires, doutores, confessores, virgens e... viúvas, como se fosse condição para ascender à santidade a rotura do vínculo conjugal por morte do cônjuge.
É verdade que foi o próprio Cristo quem apontou o celibato como caminho de vida, e o valorizou quando ele é assumido por amor do Reino de Deus (Cf. Mt., 19, 12). Mas não deixa de ser curioso que o tenha feito respondendo aos Apóstolos que, assustados com as exigências do Matrimónio, que o mesmo Jesus enunciara, concluíram que “assim sendo, é melhor não casar” (Mt., 19, 10). O que logo indicia que o caminho do casamento não representa na vida cristã uma via de menor esforço...
É pena que a reflexão sobre o Matrimónio cristão se fixe quase exclusivamente neste texto, quando a teologia do Sacramento tem a sua fonte mais rica no texto de S. Paulo aos Efésios, cap. 5. vv. 21 a 33. Também nele se enunciam os deveres dos esposos – não já apenas os decorrentes da indissolubilidade (como no texto citado de Mateus), mas principalmente a grandeza do amor mútuo, que é um amor único, pois colhe a sua grandeza no facto de representar na Terra a união de Cristo com a Sua Igreja. Marido e Mulher devem amar-se como se amam Cristo e a Igreja, unidos por um vínculo que nada nem ninguém pode quebrar.
Diz-se, e com razão, que o matrimónio é um contrato e acrescenta-se que, ao contrário de outros contratos, este não pode dissolver-se pela vontade das partes. É pobre e dificilmente compreensível. Mais uma vez o juridismo inquina a realidade, infestando-a com o seu efeito redutor. A unidade do casamento cristão não deriva do seco assentimento prestado pelas partes contratantes. O assentimento prestado configura certamente a realidade jurídica de um contrato, mas gera, para além dele, uma unidade física, bem patente aliás na expressão que vem já do Velho Testamento, e que Cristo reiterou: “serão dois numa só carne” (Mt., 19, 5): dificilmente esta expressão se pode reconduzir à imaterialidade de um acto de vontade revogável ad nutum. Falta-lhe, porém, o fundamento. E é S. Paulo quem o aduz no texto citado: os esposos representam na Terra a união de Cristo com a Sua Igreja que de jurídico não tem nada e de físico tudo tem: a Humanidade constitui-se em Igreja de Cristo pela comunhão da vida do mesmo Cristo que lhe é transmitida pelo Baptismo.
Esta é a grandeza do Matrimónio cristão, e a sua beleza na economia da salvação. Não se faz teologia falando da beleza dos mistérios e hierarquizando-os. Mas apetece-me dizer que, por aquilo que representa, o Matrimónio é realmente um Sacramento particularmente belo – que entusiasmou o próprio Paulo quando, a terminar o texto citado, não se inibe de exclamar: “Este mistério é grande!” (Ef., 5, 32).J.
Tomaz Ferreira
É verdade que foi o próprio Cristo quem apontou o celibato como caminho de vida, e o valorizou quando ele é assumido por amor do Reino de Deus (Cf. Mt., 19, 12). Mas não deixa de ser curioso que o tenha feito respondendo aos Apóstolos que, assustados com as exigências do Matrimónio, que o mesmo Jesus enunciara, concluíram que “assim sendo, é melhor não casar” (Mt., 19, 10). O que logo indicia que o caminho do casamento não representa na vida cristã uma via de menor esforço...
É pena que a reflexão sobre o Matrimónio cristão se fixe quase exclusivamente neste texto, quando a teologia do Sacramento tem a sua fonte mais rica no texto de S. Paulo aos Efésios, cap. 5. vv. 21 a 33. Também nele se enunciam os deveres dos esposos – não já apenas os decorrentes da indissolubilidade (como no texto citado de Mateus), mas principalmente a grandeza do amor mútuo, que é um amor único, pois colhe a sua grandeza no facto de representar na Terra a união de Cristo com a Sua Igreja. Marido e Mulher devem amar-se como se amam Cristo e a Igreja, unidos por um vínculo que nada nem ninguém pode quebrar.
Diz-se, e com razão, que o matrimónio é um contrato e acrescenta-se que, ao contrário de outros contratos, este não pode dissolver-se pela vontade das partes. É pobre e dificilmente compreensível. Mais uma vez o juridismo inquina a realidade, infestando-a com o seu efeito redutor. A unidade do casamento cristão não deriva do seco assentimento prestado pelas partes contratantes. O assentimento prestado configura certamente a realidade jurídica de um contrato, mas gera, para além dele, uma unidade física, bem patente aliás na expressão que vem já do Velho Testamento, e que Cristo reiterou: “serão dois numa só carne” (Mt., 19, 5): dificilmente esta expressão se pode reconduzir à imaterialidade de um acto de vontade revogável ad nutum. Falta-lhe, porém, o fundamento. E é S. Paulo quem o aduz no texto citado: os esposos representam na Terra a união de Cristo com a Sua Igreja que de jurídico não tem nada e de físico tudo tem: a Humanidade constitui-se em Igreja de Cristo pela comunhão da vida do mesmo Cristo que lhe é transmitida pelo Baptismo.
Esta é a grandeza do Matrimónio cristão, e a sua beleza na economia da salvação. Não se faz teologia falando da beleza dos mistérios e hierarquizando-os. Mas apetece-me dizer que, por aquilo que representa, o Matrimónio é realmente um Sacramento particularmente belo – que entusiasmou o próprio Paulo quando, a terminar o texto citado, não se inibe de exclamar: “Este mistério é grande!” (Ef., 5, 32).J.
Tomaz Ferreira
segunda-feira, 29 de junho de 2009
O TRABALHO DOS HOMENS
O trabalho como valor é uma realidade relativamente recente. Em tempos idos, a estratificação social de “clero, nobreza e povo” era a este, a “arraia miúda” que estava cometido o trabalho. Os nobres dedicavam-se às artes da guerra e aos prazeres da caça – embora na guerra a sale besogne tocasse, evidentemente à arraia miúda... O clero, para além da cura de almas, entregavam-se também ao estudo: nos tempos medievais a ciência recolheu-se aos conventos e era ali que se recrutavam os mestres que nas universidades aprofundavam e transmitiam o saber.
Não que o trabalho, na sua expressão manual, estivesse ausente da tradição cristã. Jesus trabalhou. Era filho de um carpinteiro, e é como tal que os seus contemporâneos o apontam quando, logo no início da sua vida pública, vai pregar a Nazaré (Cf. Mc., 6, 3). Os primeiros discípulos que recruta para depois fazer deles seus apóstolos são pescadores (Cf. Mt., 4, 18 e segs.). S. Paulo gloriava-se de ganhar o sustento próprio com o trabalho das suas mãos para não pesar às comunidades em que desenvolvia a sua actividade apostólica.
Mais perto de nós, temos o exemplo de S. Bento, o patriarca dos monges do Ocidente. No caminho de perfeição que traçou para os seus seguidores, o trabalho inscrevia-se como elemento essencial. Ora et labora – reza e trabalha – foi a divisa que propôs aos membros da sua ordem.
Nos tempos modernos, sobretudo com a revolução industrial, o trabalho impôs-se na sociedade como um valor. O que era apenas considerado como servidão ganhos foros de direito. São muitos os Estados que nas suas Constituições inscreveram o direito ao trabalho que, alargado no seu conceito, passou a designar toda a actividade humana.
E foi assim que também na espiritualidade cristã o trabalho se impôs como valor e caminho para a santidade. São conhecidos institutos religiosas de fundação recente que se distinguem por terem constituído o exercício da actividade profissional como caminho específico para a perfeição dos seus membros.
Finalmente, o Concílio Vaticano II, nomeadamente na Constituição Gaudium et Spes sobre a Igreja no mundo contemporâneo, esboçou de forma clara a concepção do trabalho na mundividência cristã e na espiritualidade dela decorrente. Sem dispensar a leitura integral do documento, aqui se deixam algumas das suas considerações.
“É com o seu trabalho que o homem sustenta de ordinário a própria vida e a dos seus; por meio dele se une e serve aos seus irmãos, pode exercitar um a caridade autêntica e colaborar no acabamento da criação divina. Mais ainda. Sabemos que oferecendo a Deus o seu trabalho, o homem se associa à obra redentora de Cristo” (GS. 67).
E temos o essencial. Por muito humilde que seja, o trabalho, todo o trabalho dos homens, é o prolongamento da acção divina: da acção criadora de Deus, da acção redentora de Cristo. Que valor maior se lhe poderia atribuir?
Não que o trabalho, na sua expressão manual, estivesse ausente da tradição cristã. Jesus trabalhou. Era filho de um carpinteiro, e é como tal que os seus contemporâneos o apontam quando, logo no início da sua vida pública, vai pregar a Nazaré (Cf. Mc., 6, 3). Os primeiros discípulos que recruta para depois fazer deles seus apóstolos são pescadores (Cf. Mt., 4, 18 e segs.). S. Paulo gloriava-se de ganhar o sustento próprio com o trabalho das suas mãos para não pesar às comunidades em que desenvolvia a sua actividade apostólica.
Mais perto de nós, temos o exemplo de S. Bento, o patriarca dos monges do Ocidente. No caminho de perfeição que traçou para os seus seguidores, o trabalho inscrevia-se como elemento essencial. Ora et labora – reza e trabalha – foi a divisa que propôs aos membros da sua ordem.
Nos tempos modernos, sobretudo com a revolução industrial, o trabalho impôs-se na sociedade como um valor. O que era apenas considerado como servidão ganhos foros de direito. São muitos os Estados que nas suas Constituições inscreveram o direito ao trabalho que, alargado no seu conceito, passou a designar toda a actividade humana.
E foi assim que também na espiritualidade cristã o trabalho se impôs como valor e caminho para a santidade. São conhecidos institutos religiosas de fundação recente que se distinguem por terem constituído o exercício da actividade profissional como caminho específico para a perfeição dos seus membros.
Finalmente, o Concílio Vaticano II, nomeadamente na Constituição Gaudium et Spes sobre a Igreja no mundo contemporâneo, esboçou de forma clara a concepção do trabalho na mundividência cristã e na espiritualidade dela decorrente. Sem dispensar a leitura integral do documento, aqui se deixam algumas das suas considerações.
“É com o seu trabalho que o homem sustenta de ordinário a própria vida e a dos seus; por meio dele se une e serve aos seus irmãos, pode exercitar um a caridade autêntica e colaborar no acabamento da criação divina. Mais ainda. Sabemos que oferecendo a Deus o seu trabalho, o homem se associa à obra redentora de Cristo” (GS. 67).
E temos o essencial. Por muito humilde que seja, o trabalho, todo o trabalho dos homens, é o prolongamento da acção divina: da acção criadora de Deus, da acção redentora de Cristo. Que valor maior se lhe poderia atribuir?
J. Tomaz Ferreira
QUANDO REZARDES...
E aconteceu que Jesus estava a rezar. E quando terminou, disse-lhe um dos seus discípulos:
- Senhor, ensina-nos a rezar, como também João (Baptista) ensinou aos seus discípulos. E Jesus disse-lhes:
- Quando rezardes, dizei assim:
Pai nosso que estais no Céu,
Santificado seja o Vosso nome,
Venha a nós o Vosso Reino,
Seja feita a Vossa vontade
Assim na Terra como no Céu;
O pão nosso de cada dia nos dai hoje,
Perdoai-nos as nossas ofensas
Assim como nós perdoamos
A quem nos tem ofendido;
E não nos deixeis cair em tentação,
Mas livrai-nos do mal. (Cf. Lc., 11, 1- 4)
- Senhor, ensina-nos a rezar, como também João (Baptista) ensinou aos seus discípulos. E Jesus disse-lhes:
- Quando rezardes, dizei assim:
Pai nosso que estais no Céu,
Santificado seja o Vosso nome,
Venha a nós o Vosso Reino,
Seja feita a Vossa vontade
Assim na Terra como no Céu;
O pão nosso de cada dia nos dai hoje,
Perdoai-nos as nossas ofensas
Assim como nós perdoamos
A quem nos tem ofendido;
E não nos deixeis cair em tentação,
Mas livrai-nos do mal. (Cf. Lc., 11, 1- 4)
quinta-feira, 11 de junho de 2009
CORPO DE DEUS
Bate-me sempre uma sensação de vazio quando visito uma igreja sem sacrário. O sacrário é, como todos sabem, a caixa em que se guardam as hóstias consagradas, que a fé cristã professa serem o Corpo de Cristo escondido nas aparências do pão.
A presença de Cristo na hóstia consagrada pertence indiscutivelmente ao depósito da revelação e é desde sempre objecto da fé de toda a Igreja. Tem como base as narrativas evangélicas da Última Ceia em que Jesus “tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e deu-o aos seus discípulos dizendo: tomai e comei, isto é o meu corpo” (Mt., 26, 26). Nem os Apóstolos se devem ter espantado com tão estranho gesto. Muito tempo antes, após a multiplicação dos pães, já Jesus misteriosamente anunciara: “O meu corpo é verdadeira comida e o meu sangue é verdadeira bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em Mim e eu nele.” (Jo., 6, 55-56) A crueza destas palavras levou muitos discípulos a abandonarem o Mestre que, perante a deserção, não teve palavras ou gestos que adoçassem o que dissera. Placidamente, limita-se a perguntar aos que ficaram: “Vós também quereis ir embora?” (Jo., 6, 67) Não quiseram, e em resposta aconteceu a primeira confissão de Pedro: “A quem havemos de ir? És tu que tens palavras de vida eterna.” (Jo., 6, 68)
Na festa do Corpo de Deus, a Igreja inteira renova esta profissão de fé daquele que Jesus constituiu alicerce da sua Igreja. É esse o significado da procissão que, por determinação canónica se realiza em todas as comunidades cristãs, propondo o Senhor Jesus, presente na hóstia consagrada, à adoração dos seus fiéis.
Isto dito, ocorre-me que seria redutor a Eucaristia apenas como um modo de presença real de Jesus no meio dos seus. Seria limitara Eucaristia ao seu lado estático: o Cristo presente nos sacrários das igrejas é o Cristo que aguarda a companhia dos seus fiéis, que lhes diz que não estão sozinhos, que os conforta nas suas desventuras. Mas esse Cristo resulta da celebração do mistério eucarístico. É na celebração eucarística que o pão e o vinho se mudam em corpo e sangue de Cristo, repartidos, como na Última Ceia por aquele que a fé reuniu à volta da mesa do banquete eucarístico.
Mas esta celebração da Eucaristia é muito mais do que isso. S. Paulo, na primeira epístola aos coríntios, deixou-nos aquele que é, cronologicamente, o primeiro testemunho escrito sobre a Eucaristia. No essencial corresponde quase literalmente ao que consta das narrativas evangélicas, que, no entanto, precede no tempo. Mas acrescenta com toda a clareza: “Todas as vezes que comeis este pão e bebeis este cálice, anunciais a morte do Senhor, até que Ele venha”. (1Cor., 11, 26) E aqui temos a chave da grandeza da Eucaristia, o seu aspecto dinâmico. Quando celebramos a Eucaristia, não nos limitamos a tornar Jesus presente sob as aparências do pão e do vinho. Quando celebramos a Eucaristia, repristinamos o mistério da nossa redenção realizada pela morte e ressurreição de Cristo. Não rememoramos apenas a morte do Senhor: actualizamos a sua função redentora, e é isso que nos permite juntar à força essencial dessa Redenção. Os micro-grãos de redenção constituídos por todas as boas obras que vamos fazendo, por todas as penas que vamos sofrendo. O nosso trabalho, o nosso sofrimento, o bem que fazemos aos outros, as lutas que travamos pela justiça e pela verdade, tudo isso, unido ao sacrifício de Cristo ali presente tem força de redenção e vai completando a Redenção do mesmo Cristo, acrescentando-lhe aquilo que lhe falta ainda (Cf. Col., 1, 24). Porque a Redenção continua em marcha “até que Ele venha”.
A presença de Cristo na hóstia consagrada pertence indiscutivelmente ao depósito da revelação e é desde sempre objecto da fé de toda a Igreja. Tem como base as narrativas evangélicas da Última Ceia em que Jesus “tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e deu-o aos seus discípulos dizendo: tomai e comei, isto é o meu corpo” (Mt., 26, 26). Nem os Apóstolos se devem ter espantado com tão estranho gesto. Muito tempo antes, após a multiplicação dos pães, já Jesus misteriosamente anunciara: “O meu corpo é verdadeira comida e o meu sangue é verdadeira bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em Mim e eu nele.” (Jo., 6, 55-56) A crueza destas palavras levou muitos discípulos a abandonarem o Mestre que, perante a deserção, não teve palavras ou gestos que adoçassem o que dissera. Placidamente, limita-se a perguntar aos que ficaram: “Vós também quereis ir embora?” (Jo., 6, 67) Não quiseram, e em resposta aconteceu a primeira confissão de Pedro: “A quem havemos de ir? És tu que tens palavras de vida eterna.” (Jo., 6, 68)
Na festa do Corpo de Deus, a Igreja inteira renova esta profissão de fé daquele que Jesus constituiu alicerce da sua Igreja. É esse o significado da procissão que, por determinação canónica se realiza em todas as comunidades cristãs, propondo o Senhor Jesus, presente na hóstia consagrada, à adoração dos seus fiéis.
Isto dito, ocorre-me que seria redutor a Eucaristia apenas como um modo de presença real de Jesus no meio dos seus. Seria limitara Eucaristia ao seu lado estático: o Cristo presente nos sacrários das igrejas é o Cristo que aguarda a companhia dos seus fiéis, que lhes diz que não estão sozinhos, que os conforta nas suas desventuras. Mas esse Cristo resulta da celebração do mistério eucarístico. É na celebração eucarística que o pão e o vinho se mudam em corpo e sangue de Cristo, repartidos, como na Última Ceia por aquele que a fé reuniu à volta da mesa do banquete eucarístico.
Mas esta celebração da Eucaristia é muito mais do que isso. S. Paulo, na primeira epístola aos coríntios, deixou-nos aquele que é, cronologicamente, o primeiro testemunho escrito sobre a Eucaristia. No essencial corresponde quase literalmente ao que consta das narrativas evangélicas, que, no entanto, precede no tempo. Mas acrescenta com toda a clareza: “Todas as vezes que comeis este pão e bebeis este cálice, anunciais a morte do Senhor, até que Ele venha”. (1Cor., 11, 26) E aqui temos a chave da grandeza da Eucaristia, o seu aspecto dinâmico. Quando celebramos a Eucaristia, não nos limitamos a tornar Jesus presente sob as aparências do pão e do vinho. Quando celebramos a Eucaristia, repristinamos o mistério da nossa redenção realizada pela morte e ressurreição de Cristo. Não rememoramos apenas a morte do Senhor: actualizamos a sua função redentora, e é isso que nos permite juntar à força essencial dessa Redenção. Os micro-grãos de redenção constituídos por todas as boas obras que vamos fazendo, por todas as penas que vamos sofrendo. O nosso trabalho, o nosso sofrimento, o bem que fazemos aos outros, as lutas que travamos pela justiça e pela verdade, tudo isso, unido ao sacrifício de Cristo ali presente tem força de redenção e vai completando a Redenção do mesmo Cristo, acrescentando-lhe aquilo que lhe falta ainda (Cf. Col., 1, 24). Porque a Redenção continua em marcha “até que Ele venha”.
J. Tomaz Ferreira
segunda-feira, 8 de junho de 2009
MAS AS CRIANÇAS, SENHOR...
Filhos atormentados, de pais separados,
estais na encruzilhada de caminhos que divergem,
lugares de encontro dos corações, durante a noite.
Sois os laços que não podem ser desfeitos, as carnes que não podem ser desunidas.
Sois o vosso pai e a vossa mãe, que, em vós, se não podem divorciar,
e sois o seu amor que sobrevive, enquanto viverdes.
Sois “eles”, para sempre casados.
Filhos abandonados, de pais desconhecidos,
sois os rostos de pais e mães, a vossos olhos sem rosto,
flores frescas, sem nome, em bem organizados herbanários.
Sois vidas nascidas de desejos sem limites,
mas preenchendo, os desejos de Deus,
sois seus filhos, mais que outros ainda, porque sois corações desocupados,
disponíveis para o Seu Amor de Pai.
Se quiserdes, filhos abandonados,
o Pai “educar-vos-á”, como seus filhos queridos,
pois Ele arranjou um lugar muito grande para vós,
sem ser disputado por pais que tudo sabem,
pensando, muitas vezes, fazer melhor que o Pai da vida.
Filhos atormentados,
Filhos abandonados,
VIVEI!
Michel Quoist, Falai-me de Amor, ed. Paulistas, p.174
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