sexta-feira, 11 de julho de 2008

Vamos pensar novas formas de organização...

O PREÇO DAS MISSAS

Não é que eu não soubesse. Desde que me conheço, sempre ouvi que quando se manda celebrar uma Missa, é preciso pagá-la ao padre que a celebra. E o povo simples “pagava” a Missa, traduzindo no seu linguajar rude uma relação de fornecedor-consumidor, uma operação de compra e venda.
Os mais iustrados sabiam que não se pagava o “preço” da Missa e, com maior propriedade linguística, falavam do “estipêndio”. A palavra foi colhida no direito romano, onde se distinguiam dois impostos: o tributum nas províncias sujeitas ao imperador, e o stipendium nas províncias sujeitas ao Senado.
Como é sabido, a Igreja cristianizou o Império – mas o Império romanizou a Igreja. E a Igreja importou do Império coisas boas e más. Uma delas foi o estipêndio que em rigor podemos definir como um imposto cobrado aos fiéis por ocasião da prestação de um serviço. Em linguagem actual, não andaremos longe da verdade se definirmos o estipêndio das Missas como uma taxa que a Igreja cobra pela prestação de um serviço.
Foi essa taxa que numas quantas dioceses do norte do pais sofreu um aumento de 33%, passando de 7.50 para 10 euros.
O que me chocou foi a forma brutal como o anúncio me chegou pela comunicação social: “Preço das Missa aumenta 33%”. Falar em preço duma coisa sagrada sabe a simonia que é exactamente isso: a venda de bens espirituais e que S. Pedro condenou veementemente na tentativa feita por Simão de conseguir por dinheiro o poder de transmitir o Espírito Santo (Cf. Act., 8, 18-24). É que a regra fora estabelecida, e com tada a clareza, pelo próprio Cristo: “Dai de graça o que gratuitamente recebestes” (Mt., 10, 8).
É claro que, reduzido o preço das Missas à categoria de estipêndio, não se pode falar propriamente em simonia. E os juristas sempre podem argumentar que, sendo a Igreja uma sociedade perfeita, lhe cabe indiscutivelmente o poder da cobrar taxas e impostos. Não vamos discutir agora a pertinência do argumento e damos de barato que, vivendo no mundo, neste mundo, a Igreja não pode prescindir dos bens materiais. Mas assim? Dando azo a ser apresentada como um qualquer fornecedor de serviços que cobra a taxa à tabela fixada? Não se poderia deixar ao arbítrio dos utentes o que querem dar como contributo para as necessidades do clero (que variam muito de caso para caso) e as precisões do culto?
Talvez que a raiz deste fenómeno de deva procurar na forma como a Igreja está organizada. Mas então, porque não procurar formas de organização novas que nos dêem não uma outra Igreja (é esta que é a nossa Mãe), mas uma Igreja que seja outra.
J. Tomaz Ferreira