segunda-feira, 2 de março de 2009

FALANDO AINDA DE DEUS

Num texto que ficou conhecido como MEMORIAL, descreve Pascal a experiência mística por que passou na noite de segunda-feira, dia 23 de Novembro do ano da graça de 1654, e em que acedeu à verdade que havia de nortear a sua vida até à morte ocorrida oito anos depois. É aí que proclama, logo ao entrar, as palavras decisivas do seu encontro com a Verdade: “Deus de Abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacob, não o Deus dos filósofos e dos sábios... o Deus de Jesus Cristo”.
É que filósofos e sábios podem concluir pela existência de Deus, podem encontrar-Lhe atributos como os da omnipotência, da omnisciência, da omnipresença. E pouco mais. S. Tomás de Aquino preconiza as três vias para o conhecimento de Deus: a da afirmação – atribuir a Deus tudo o que de bom se encontra nas criaturas; a da negação - afastar da ideia de Deus tudo o que de mau ou defeituoso se nos depara no mundo; a da eminência – elevar ao infinito o que de bom se atribui a Deus. É pouco. É pobre. No termo da reflexão dos filósofos encontra-se, quando muito, um Deus em si. Impossível lhes será determinar se e como é Deus para nós. E este é, como aliás já dissemos, o cerne do problema de Deus, quando pensado pelos homens.
Tinha, pois, razão o Apóstolo S. João quando escrevia: “A Deus nunca ninguém o viu. O Filho Unigénito, que está no seio do Pai, foi Ele quem o deu a conhecer”. (Jo. 1, 18).
O ponto fulcral que na revelação de Deus em Jesus Cristo define a atitude de Deus face ao mundo e, nomeadamente, face ao homem, é o Amor. A filosofia chega ao Deus criador, e daí não passa a não ser em termos de pergunta sem resposta: porquê? Para quê? O que levou Deus a criar o mundo? E qual o objectivo da criação? Perante estas perguntas, a razão humana emudece, porque não consegue extrair do criado elementos que lhe permitam mais do que formular hipóteses, mais plausíveis umas do que outras, sem que nenhuma se imponha como indiscutível. De resto, no vasto mundo e no desenrolar da História abundam as ambiguidades que infirmam qualquer conclusão que quisesse aventar-se como decisiva.
É Cristo quem nos revela que é de amor a relação de Deus com o mundo, nomeadamente nas espantosas palavras que proferiu no seu diálogo com Nicodemos reportadas no Evangelho de S. João: “Deus amou de tal modo o mundo, que lhe entregou o Seu Filho Unigénito” (Jo., 3, 16). É pois à luz do amor que se deve entender toda a relação que Deus quer estabelecer com os homens. Um amor indescritível, inefável, como diria S. Agostinho. Para o traduzir em termos humanos, Cristo foi buscar a realidade que melhor traduz o amor gratuito e apresentou-nos Deus como Pai: “Um só é o vosso Pai que está nos céus, e todos vós sois irmãos” ( Mt., 23, 9). Pai é o nome por que Deus quer ser chamado pelos homens: “Quando rezardes, dizei assim: Pai nosso que estais no céu” (Mt., 6, 9).
Como estamos longe do Deus omnipotente dos filósofos cuja grandeza nos esmaga e a cujo convívio dificilmente podemos aspirar! O Deus de Jesus Cristo é um Deus presente, é um Emanuel: é um Deus connosco. Como já, com uma ponta de orgulho, escrevia o autor do Deuteronómio, referindo-se ao Povo de Israel: “Que nação haverá que tenha um Deus tão próximo de si, como está próximo de nós o nosso Deus?”(Deut., 4, 7).
Parafraseando as palavras de Pascal: Deus de Abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacob; não o Deus dos filósofos e dos sábios, fixado na solidão gelada da sua infinitude; mas o Deus de Jesus Cristo, que nos ama e acompanha, como um pai aos seus filhos.

J. Tomaz Ferreira